domingo, 23 de agosto de 2026

Cuidado com os sonhos

 Um dos sonhos de consumo de muitas pessoas, ainda ontem o ouvi a uma, é um cruzeiro no mediterrâneo. Tambem o tinha. E concretizei. Logo à saída de Lisboa, a ver a Torre de Belém cada vez mais pequena, tive vontade de ter braços de Inspetor Gadget, e esticá-los bem até chegarem ao Padrão dos Descobrimentos, agarrá-lo com toda a força e, como um elástico, voltar a Lisboa e cagar pro barco. Não consegui, mas ficou-me um amargo de boca e uma saudade imensa de quem ainda nem tinha ficado pra trás. E ia eu pra uma semana de rambóia! Imagino o que sentiam os pobres marinheiros quando partiam mar afora empurrados pelo "navegador ?" D. Henrique. Já de noite, depois da logística de boas vindas, até cheguei a pensar que seria mesmo como eu tinha imaginado e seria uma viagem e tanto. E tambem pensei, que um calhamaço enorme, com quase cinco mil pessoas a bordo, jamais baloiçaria e de certeza eu nem precisaria de tomar nada pro enjoo. E não tomei. E tambem não enjoei. Mas estando eu sentada no trono, que, vá-se lá saber porquê ficava encavalitado num espaço mais elevado que o resto da casa de banho, sou literalmente arrancada do cagatório quase sem tempo de verter águas e ainda de cuecas na mão, e dou por mim de boca aberta de susto, olhos arremelgados e sem perceber se estava a entrar espelho adentro ou na minha guela abaixo. Ainda a coisa estava bem no início. Depois do jantar, e ainda no Atlântico, admirei-me de ter conseguido equilibrar a bucha no tabuleiro sem esparramar tudo pelo chão e bendisse a minha parca altura, já que o que me ajudou foram os cus dos tanganhões de dois metros onde eu me apoiava a mim e ao tabuleiro. Juro que não sei como gente da altura de uma vara de dois metros conseguiam fazer tanto equilíbrio. Depois do jantar, ao teatro. Um excerto do musical Cats que, inesperadamente gostei, eu que nem aprecio musicais. A seguir a noite. Aquela altura do dia em que costumo ficar em introspeção mesmo sem querer. Dormi embalada pelo Atlântico mesmo sabendo que o dia seguinte seria todo de navegação, logo, sem pés na terra. Levei três livros, para admiração de quem me conhecia há um dia e que nunca na vida leriam um livro, muito menos num cruzeiro. Um dia de leitura e aborrecimento. Porque sou totó! Então não há tanto pra fazer num barco daqueles? Claro que há! Piscinas interiores e exteriores com milhentas pessoas, ginásio, Yoga, dança, workshops de origami, descamação de peixe, flores de papel, dobragem de guardanapos, e mais uns quantos todos muito interessantes, eu é que sou esquisita. Depois de um dia e uma noite naquele "paraíso", chegou a hora de sair. Mas, claro, sair não é só sair porta fora. É aguentar uma logística demorada, nada de acordo com a minha vontade de pôr os pés no chão. E foram dez dias nisto, com saídas "precárias" mescladas com dias intermináveis de navegação. Mas não foi tudo mau. Tambem tive o privilégio de poder estar na cama a ver os golfinhos no mediterrâneo, a comida não era nada má com petiscos de todo o mundo, apesar de não terem arroz de grêlos nem pataniscas de bacalhau ou cozido à portuguesa ou massa à lavrador. Tambem havia uns fantasmas que , durante dez dias, conseguiram limpar, arrumar embelezar e informar, tudo num quarto estupendo, sem que eu lhes pusesse a vista em cima. Cheguei a sair do quarto só pra dar um traque no convés e quando chegava, já os chinelos que eu tinha deixado em cima um do outro, estavam direitinhos, emparelhados como na prateleira de uma loja. Se íamos jantar e nos lembrávamos de voltar atrás pra buscar um casaco, já as toalhas da casa de banho tinham sido mudadas ou, sei lá eu, sofrido um qualquer procedimento que as deixava limpinhas e cheirosas. Isto dos sonhos, ou desejos ardentes, tem muito que se lhe diga. Maior o desejo, pode ser maior a decepção. E não é só nas viagens! Penso que, talvez nunca mais embarque numa coisa destas. Mas não é que de vez em quando penso que deve ser bem interessante visitar as ilhas gregas de barco? Depois, ficou-me na memória a inesquecível saída da Génova, a chegada a Marselha, a chegada a Portofino, ......e outras coisas boas, claro. E o tempo cura as decepções. 

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